Futuro do trabalho

Data centers prometem 40 mil vagas — análise encontra apenas um quarto

|Autor: Equipe editorial da QUASA|5 min de leitura| 1
Data centers prometem 40 mil vagas — análise encontra apenas um quarto

Uma análise publicada em 9 de setembro estima que os data centers existentes e planejados no Reino Unido sustentarão cerca de 10,4 mil empregos diretos de operação, aproximadamente um quarto dos 40,2 mil postos adicionais projetados pelo setor até 2035. A avaliação da Verdant, baseada em registros públicos e em uma amostra de 20 projetos, também reduz de 24,3 mil para cerca de 4,4 mil a estimativa de empregos diretos nos centros britânicos já existentes.

Esses números não são vagas abertas agora, e a comparação não é perfeitamente equivalente. Os 10,4 mil representam a estimativa da Verdant para o total de empregos diretos após a implantação dos projetos conhecidos; os 40,2 mil são empregos operacionais adicionais em um cenário de expansão acelerada da capacidade até 2035. A publicação abriu uma disputa com a techUK e o governo britânico sobre quais empregos devem ser contados e se vagas por megawatt são uma medida adequada.

As duas projeções medem cenários diferentes

Obras de um data center britânico contrastam empregos temporários da construção com uma equipe permanente menor de operação.

O primeiro ponto de separação é a categoria de emprego. Postos diretos de operação são funções permanentes necessárias para manter instalações, equipamentos elétricos, refrigeração, segurança e serviços locais. Eles não equivalem aos trabalhos temporários da construção, aos empregos indiretos em fornecedores nem às atividades econômicas que usam a capacidade computacional oferecida pelos centros.

No relatório publicado pela techUK em 2024, o setor aparece sustentando 43,5 mil empregos em toda a economia britânica. Em um cenário no qual o crescimento anual da oferta subiria de 10% para 15%, a associação projetou 40,2 mil empregos diretos adicionais na operação até 2035 e 18,2 mil postos diretos na construção ao longo de 2025 a 2035.

A Verdant restringe sua estimativa principal ao quadro permanente dentro das instalações. Ela usa dados de pessoal encontrados em pedidos de planejamento, contas de empresas e comunicados para questionar o multiplicador aplicado pela techUK. Assim, a diferença não opõe uma contagem oficial a outra: contrapõe dois modelos, com bases, universos e horizontes distintos.

O megawatt amplia a divergência

Infraestrutura elétrica de grande capacidade contrasta com a baixa densidade de trabalhadores permanentes em um data center britânico.

O megawatt é usado como indicador do porte elétrico de um empreendimento. Quando a capacidade prevista é multiplicada por uma quantidade constante de empregos por megawatt, cada nova parcela de infraestrutura elétrica se converte em postos de trabalho. A projeção muda drasticamente quando esse multiplicador deriva de instalações menores e antigas ou de grandes projetos recentes.

Na reconstrução da Verdant, os centros existentes correspondem a cerca de 8,6 empregos diretos por megawatt. Os 20 projetos examinados apresentam média ponderada menor, próxima de 1,2 emprego operacional por megawatt; após ajustar a composição da carteira planejada, a organização aplica aproximadamente 1,6 emprego por megawatt para chegar ao total nacional de 10,4 mil.

A queda de intensidade é plausível porque um campus maior pode aumentar sua capacidade sem multiplicar na mesma proporção as equipes locais de manutenção, refrigeração e segurança. Isso não demonstra que a infraestrutura seja desprovida de valor econômico: mostra apenas que capacidade elétrica e emprego permanente não crescem necessariamente no mesmo ritmo.

A escolha do denominador também importa. Capacidade reservada para conexão à rede não é o mesmo que consumo efetivo contínuo. Para a Verdant, a reserva ainda representa um custo de oportunidade porque pode restringir outros projetos; para os críticos, dividir empregos pela potência máxima oferece uma visão estreita do efeito econômico e pode distorcer comparações com hospitais, escolas ou fábricas.

Governo e techUK contestam o método

O governo britânico rejeitou a conclusão baseada em empregos por megawatt. No relato do Guardian sobre a controvérsia, um porta-voz governamental classificou a métrica como enganosa, disse que ela confundia capacidade com consumo e argumentou que não incorporava o valor econômico da computação nem razões de segurança e soberania.

A techUK, ouvida na mesma reportagem, defendeu que suas projeções usam dados setoriais e técnicas padronizadas de avaliação de impacto econômico. A associação manteve como razoáveis tanto os 43,5 mil empregos atualmente apoiados quanto a possibilidade de acrescentar cerca de 40 mil até 2035. Essa defesa, porém, reúne no debate uma medida ampla de empregos apoiados e outra específica de postos diretos futuros, categorias que não devem ser tratadas como uma única contagem.

A Verdant respondeu que adotou a capacidade solicitada pelas próprias empresas porque o acesso reservado à rede pode excluir usos alternativos mesmo quando o centro não consome toda a carga continuamente. A divergência, portanto, não se limita ao número final: um lado usa o megawatt para examinar a intensidade de contratação e o custo de oportunidade; o outro enfatiza efeitos econômicos que ultrapassam o quadro de funcionários no local.

O que a disputa revela para projetos no Brasil

Projeto brasileiro de data center separa visualmente a fase de obras da operação permanente e de sua demanda elétrica.

Para avaliar promessas brasileiras, a comparação britânica mostra a necessidade de separar quatro elementos: emprego direto permanente, trabalho temporário de construção, postos indiretos ou induzidos e o prazo em que cada resultado seria alcançado. Também é preciso esclarecer se a potência citada corresponde à conexão reservada, à capacidade máxima instalada ou ao consumo esperado.

Essa distinção será relevante conforme novos data centers no Brasil forem associados a políticas de infraestrutura para inteligência artificial. O total anunciado pode parecer elevado porque soma categorias diferentes; a razão de empregos permanentes por megawatt permite testar a intensidade de contratação, mas não mede sozinha produtividade, serviços digitais, arrecadação, segurança energética ou impactos sobre a rede.

O estado atual da controvérsia é uma diferença grande entre projeções, não uma contagem definitiva. Reduzi-la exigirá dados padronizados por instalação, divulgação separada das fases de construção e operação e comparação posterior entre os postos prometidos e o quadro efetivamente contratado quando os novos centros entrarem em funcionamento.

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