Futuro do trabalho

BLS prevê 5,9 milhões de vagas: saúde cresce mesmo sob pressão da IA

|Autor: Equipe editorial da QUASA|6 min de leitura| 1
BLS prevê 5,9 milhões de vagas: saúde cresce mesmo sob pressão da IA

O U.S. Bureau of Labor Statistics (BLS) publicou em 27 de agosto de 2026 suas projeções para o mercado de trabalho dos Estados Unidos entre 2025 e 2035. A divulgação oficial do BLS estima 5,9 milhões de empregos líquidos adicionais, levando o total de 170,3 milhões para 176,2 milhões — crescimento de 3,5%, abaixo dos 10,9% registrados na década anterior.

Nas projeções publicadas em 27 de agosto, a saúde concentra o maior volume de novos postos, enquanto ciência, computação e infraestrutura elétrica também crescem; apoio administrativo, vendas e produção encolhem. A síntese da Axios, publicada no dia seguinte, destaca 847,3 mil empregos adicionais para auxiliares de saúde domiciliar e cuidados pessoais e mostra que a pressão da IA não produz o mesmo resultado em todas as profissões.

Saúde responderá por 37% dos novos empregos

Auxiliar de saúde domiciliar presta cuidado presencial a uma pessoa idosa, área que lidera a criação de empregos até 2035

O principal motor do crescimento líquido é demográfico. A saúde e a assistência social privadas devem criar mais de 2,2 milhões de empregos, avanço de 9,5% e aproximadamente 37% de todo o aumento projetado. O envelhecimento da população e a maior prevalência de doenças crônicas sustentam a demanda por diagnóstico, tratamento, acompanhamento e cuidados domiciliares.

Os auxiliares de saúde domiciliar e cuidados pessoais representam o maior aumento absoluto entre as ocupações: 847,3 mil postos, ou 18,1%. Já os nurse practitioners — enfermeiros de prática avançada — lideram o crescimento percentual, com 41%, mas partem de uma base muito menor e devem acrescentar 137,8 mil empregos. A comparação evita confundir velocidade de expansão com quantidade efetiva de postos criados.

O título usa “vagas” no sentido de empregos líquidos projetados, não de anúncios de contratação já disponíveis. As estimativas descrevem como o estoque de empregos pode mudar ao longo de dez anos; elas são diferentes das aberturas anuais, que também incluem substituições de trabalhadores que deixam uma ocupação.

As carreiras que crescem e a formação típica

Profissionais de saúde, ciência de dados e energia executam atividades ligadas às carreiras de maior crescimento projetado

A matriz ocupacional para 2025–2035 permite comparar crescimento, aumento absoluto e escolaridade normalmente exigida para ingresso nos Estados Unidos. Esses requisitos não equivalem automaticamente ao reconhecimento de diplomas estrangeiros.

  • Nurse practitioners: crescimento de 41% e 137,8 mil empregos adicionais; mestrado. A expansão acompanha a demanda por atendimento e por modelos de cuidado em equipe.
  • Instaladores de sistemas solares fotovoltaicos: crescimento de 36,5% e 11,3 mil postos adicionais; ensino médio, seguido de treinamento no trabalho. A demanda vem da expansão da geração elétrica.
  • Cientistas de dados: crescimento de 34,6% e 95,4 mil empregos adicionais; bacharelado. Organizações precisam desenvolver modelos, estruturar dados e aplicar sistemas digitais à operação e à tomada de decisões.
  • Técnicos de manutenção de turbinas eólicas: crescimento de 29,5% e 3,5 mil postos adicionais; formação técnica pós-secundária sem diploma universitário. A atividade acompanha a instalação e a manutenção da capacidade eólica.
  • Gestores de serviços médicos e de saúde: crescimento de 24,2% e 155,1 mil empregos adicionais; bacharelado e, tipicamente, experiência relacionada. Redes maiores de atendimento exigem coordenação operacional e clínica.
  • Auxiliares de saúde domiciliar e cuidados pessoais: crescimento de 18,1% e 847,3 mil empregos adicionais; ensino médio e treinamento de curta duração no trabalho. É o maior aumento absoluto da lista, impulsionado pelo cuidado domiciliar.

Os dados combinam trajetórias de qualificação muito diferentes. Há crescimento em ocupações acessíveis pelo ensino médio, em carreiras técnicas e em profissões que exigem graduação ou pós-graduação; portanto, “trabalhos em expansão” não formam um único mercado de formação.

Exposição à IA não é previsão de demissão

Junto das projeções, o órgão introduziu quatro categorias relativas de exposição ocupacional à IA: baixa, moderada, alta e muito alta. A metodologia de exposição à IA combina cinco fontes externas — três medidas teóricas e duas baseadas em usos observados — e adverte que a classificação não mede perda de emprego, probabilidade de automação, substituição de trabalhadores, produtividade ou salários.

Exposição significa que capacidades de IA correspondem a parte das tarefas de uma ocupação ou que modelos foram observados executando atividades relacionadas. Isso não determina se a tecnologia substituirá trabalhadores, ampliará sua produtividade ou criará serviços que elevem a demanda. As próprias fontes observacionais podem refletir usuários pioneiros, e a maior parte das medidas se concentra em modelos de linguagem.

Essa distinção explica por que ocupações próximas da tecnologia podem continuar crescendo. Cientistas de dados devem avançar 34,6%, e cientistas de pesquisa em computação e informação, 21,8%, porque organizações demandarão profissionais para desenvolver, aperfeiçoar e aplicar sistemas digitais. A exposição às ferramentas é alta em muitas atividades cognitivas, mas a projeção de emprego depende também da procura pelos serviços produzidos.

A IA expande infraestrutura e reduz rotinas administrativas

Técnicos mantêm infraestrutura computacional e elétrica cuja demanda cresce com a adoção da inteligência artificial

Serviços profissionais, científicos e técnicos devem adicionar 926,7 mil empregos, avanço de 8,6%, impulsionados pela demanda por sistemas de IA, pesquisa, desenvolvimento e consultoria associada. As ocupações de ciências da vida, físicas e sociais devem crescer 7,5%; computação e matemática, 7,3%.

A expansão digital também aparece na economia física. O setor de utilidades deve registrar o maior crescimento percentual entre os grandes setores, 9,8%, mas criar apenas 58,8 mil empregos por partir de uma base pequena. Provedores de infraestrutura computacional, processamento de dados e hospedagem devem avançar 25,1% e acrescentar 120,4 mil postos, enquanto a demanda elétrica de data centers favorece geração e manutenção de energia.

Do outro lado, ferramentas generativas e outros sistemas de automação podem reduzir o trabalho necessário em tarefas repetitivas. O grupo de apoio administrativo deve encolher 4% e perder 752,1 mil empregos; vendas devem recuar 1,4%, e ocupações de produção, 0,4%. São projeções para grupos amplos, não uma afirmação de que todas as funções dentro deles desaparecerão.

Para leitores brasileiros, os números não podem ser transportados diretamente para outro mercado, pois refletem demografia, regulamentação, matriz energética e estrutura produtiva dos Estados Unidos. Ainda assim, a combinação de experiência profissional e competências técnicas já aparece nas contratações de IA no Brasil, o que reforça a necessidade de separar exposição tecnológica, demanda setorial e qualificação.

Projeção indica direção, não destino fechado

Estimativas para uma década carregam incerteza: recessões, mudanças demográficas, imigração, legislação e avanços tecnológicos podem alterar tanto o número total quanto a distribuição dos empregos. A orientação metodológica é dar mais peso à direção e à dimensão relativa das mudanças do que à precisão aparente de cada valor.

O quadro publicado em 27 de agosto é, portanto, de crescimento líquido mais lento, liderado pela saúde, acompanhado por expansão em ciência, computação e infraestrutura e por perdas concentradas em atividades administrativas e automatizáveis. Uma análise mais detalhada das projeções deverá aparecer na Monthly Labor Review ainda em 2026, e a rodada referente a 2026–2036 está prevista para 2027.

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