Empresas ainda contratam iniciantes — experiência pesa mais que automação

|Autor: Equipe editorial da QUASA|6 min de leitura
Empresas ainda contratam iniciantes — experiência pesa mais que automação

Em 24 de setembro de 2026, uma executiva da ManpowerGroup afirmou em artigo no Fórum Econômico Mundial que empregadores continuam contratando profissionais em início de carreira. Entre as empresas que reduzem essas vagas, a busca por pessoas capazes de contribuir imediatamente aparece antes da automação por inteligência artificial. A análise retoma dados de contratação divulgados no mesmo mês; ela não indica que a IA tenha encerrado as oportunidades de entrada.

A pesquisa global da ManpowerGroup, divulgada em 8 de setembro de 2026 após entrevistas com 39.878 empregadores de 42 países, registrou que 45% relataram aumento da contratação inicial em relação a 2025 e 20% relataram redução; para o Brasil, apontou expectativa líquida de emprego de 53% no quarto trimestre. O número brasileiro trata da intenção de contratação para o quadro geral, e não da parcela de vagas destinada a iniciantes.

Mais contratações iniciais não significam acesso fácil

A comparação global descreve a proporção de empregadores que aumentaram ou reduziram a contratação de pessoas no começo da carreira. Ela não mede o total de vagas criadas, o número de candidatos contratados nem a facilidade de conseguir o primeiro emprego. Uma empresa que ampliou esse tipo de contratação pode ter aberto poucas posições; outra que recuou pode responder por um volume maior de postos. Por isso, os percentuais mostram a direção relatada pelas empresas consultadas, sem permitir calcular um saldo mundial de admissões.

Há também uma diferença entre estar no início da carreira e chegar sem experiência aplicável à função. O empregador pode manter posições de entrada e, ainda assim, procurar alguém que já tenha realizado tarefas semelhantes em estágio, formação prática ou projeto. Esse filtro ajuda a explicar a aparente contradição entre o aumento das contratações iniciais na pesquisa e a dificuldade que candidatos podem encontrar em processos seletivos. Os dados não mostram que toda vaga inicial passou a exigir experiência prévia, nem quantificam quantas adotaram esse requisito.

O que leva empresas a recuar

Na classificação global apresentada pela cobertura da RE+D, a redução geral das contratações, a pressão de custos e a falta de experiência vêm antes da automação por IA entre os motivos para limitar vagas iniciais; no recorte grego, a automação aparece ainda mais abaixo na lista. As posições não devem ser confundidas com uma medida do número de empregos substituídos por tecnologia. Elas registram razões apontadas por empregadores que decidiram contratar menos iniciantes.

Os motivos atuam de maneiras diferentes. Uma empresa que reduz o recrutamento como um todo tende a oferecer menos portas de entrada mesmo sem automatizar tarefas. A pressão de custos pode favorecer a contratação de alguém que precise de menos preparação para assumir uma função. Já a falta de experiência se refere à distância entre o que o posto exige e o que os candidatos conseguem demonstrar. A IA pode modificar essas exigências, mas os dados disponíveis não sustentam tratá-la como a principal explicação para o recuo observado nessa pesquisa.

O dado brasileiro exige outra leitura

A expectativa líquida positiva para o Brasil indica que, entre os empregadores consultados, a parcela que planeja ampliar equipes supera a que prevê reduzi-las. Trata-se de uma medida de intenção sobre o emprego em geral, referente ao período de outubro a dezembro. Ela não informa quantas admissões serão efetivadas, quais serão para profissionais em início de carreira ou se as vagas exigirão conhecimentos obtidos anteriormente em trabalho, estágio ou formação prática.

Também não é possível aplicar diretamente ao Brasil a proporção global de empresas que relataram ampliar a contratação inicial. São recortes distintos: um descreve mudanças já declaradas na contratação de iniciantes em vários países; o outro resume planos brasileiros para o tamanho das equipes. Lidos juntos, indicam que há demanda por trabalho e que a contratação inicial continua em parte do mercado. Não permitem prometer uma melhora equivalente para cada candidato, profissão ou região brasileira.

Expansão, reposição e novas competências

O aumento de equipes pode criar postos adicionais, mas nem toda contratação representa expansão. Empresas também preenchem posições deixadas por quem saiu ou procuram capacidades diferentes para funções que mudaram. Uma reposição pode preservar uma oportunidade de entrada sem elevar o número de empregados. Uma função redesenhada pode abrir uma vaga e, ao mesmo tempo, tornar a seleção mais exigente para quem ainda não teve contato com suas tarefas.

Essa distinção importa para interpretar o receio de substituição pela IA. A adoção de uma ferramenta pode alterar o trabalho esperado de um iniciante sem eliminar o posto; em outras situações, a empresa pode simplesmente suspender contratações por custos ou demanda menor. A pesquisa registra motivos e intenções informados por empregadores, mas não acompanha cada vaga para estabelecer qual dessas trajetórias ocorreu. Assim, a persistência das contratações iniciais e a mudança nas competências procuradas podem acontecer ao mesmo tempo.

Que evidências ajudam um iniciante a demonstrar capacidade

Se a preocupação do empregador é a contribuição desde cedo, o candidato pode tornar mais visível o que já sabe fazer. Isso é uma consequência prática dos critérios descritos na pesquisa, não uma garantia de contratação. As evidências mais úteis dependem da função e permitem entender a tarefa executada, a responsabilidade assumida e o resultado alcançado:

  • Um projeto concluído pode mostrar qual problema foi enfrentado, que trabalho o candidato realizou e o que conseguiu entregar.
  • Um estágio ou uma atividade supervisionada pode mostrar execução de tarefas reais, resposta a orientações e correção de problemas.
  • Uma experiência de colaboração pode esclarecer decisões tomadas em conjunto e a parte do trabalho pela qual o candidato respondeu.

Em funções que envolvem IA, saber nomear uma ferramenta diz pouco, isoladamente, sobre a capacidade de trabalhar. Um exemplo concreto ganha sentido quando identifica a tarefa, a contribuição da ferramenta e a forma de conferir o resultado. Essa distinção é especialmente relevante quando cargos júnior ligados à IA também pedem experiência. Um projeto pode oferecer evidência de habilidade aplicada, mas não substitui automaticamente a experiência exigida para uma vaga específica.

O quadro confirmado é, portanto, limitado e concreto: mais empregadores globais relataram ampliar do que reduzir a contratação inicial, enquanto os recuos foram associados principalmente a condições de recrutamento, custos e experiência. Ainda faltam dados de admissões efetivas e um recorte brasileiro equivalente para vagas de entrada. A próxima medição de expectativas poderá mostrar se o movimento declarado pelas empresas persiste; só dados de contratações realizadas permitirão avaliar quantas oportunidades chegaram aos iniciantes.

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