
CEOs preveem contratar e cortar com IA — o paradoxo está nos cargos

A pesquisa da KPMG divulgada em 15 de outubro de 2026, com 400 CEOs de grandes empresas dos Estados Unidos, mostra que 89% esperam ampliar o quadro total nos próximos três anos; em resposta à IA, 53% planejam reduzir pessoal em algumas áreas e 86% pretendem redesenhar funções, carreiras ou equipes em um horizonte de dois a cinco anos. As respostas tratam de partes diferentes da força de trabalho e de prazos distintos.
O resultado responde à pergunta sobre contratar ou cortar: os executivos preveem os dois movimentos, mas não necessariamente nos mesmos cargos. À Axios, o presidente da KPMG nos EUA, Tim Walsh, descreveu a capacidade que a IA pode abrir nos processos: “As we put more AI into our processes and platforms, the capacity opens up”. Para ele, essa capacidade pode permitir a expansão dos negócios e, com ela, do quadro de funcionários. Trata-se de uma expectativa dos líderes entrevistados, não de vagas já criadas.
O quadro pode crescer enquanto uma área encolhe
O total de empregados de uma empresa é o saldo de movimentos em equipes diferentes. Uma operação pode precisar de menos pessoas para executar determinada rotina, enquanto outra contrata para atender mais clientes, desenvolver serviços ou trabalhar com sistemas de IA. Se as admissões superarem as saídas, o quadro cresce mesmo que uma equipe específica perca postos.
A distinção aparece na forma das perguntas. A previsão de aumento se refere ao número total de empregados da empresa; a redução planejada se refere a algumas áreas. As respostas não informam quantas pessoas serão contratadas ou dispensadas em cada companhia, nem identificam as ocupações afetadas. Subtrair a proporção de CEOs que prevê cortes da proporção que prevê crescimento, portanto, não produz uma estimativa de empregos líquidos.
Também não há um único calendário para os planos. Uma empresa pode contratar durante a expansão de um negócio e reorganizar outras funções mais adiante. A pesquisa capta intenções executivas em horizontes diferentes; ela não acompanha decisões já executadas por cada organização. E a previsão de crescimento do quadro total não atribui à IA, por si só, cada contratação esperada.
Quatro caminhos entre contratações e cortes

Substituição de tarefas. Em um cenário hipotético, um sistema de IA passa a preparar e classificar informações que antes ocupavam parte da jornada de uma equipe. A empresa pode reduzir postos concentrados nessa rotina e manter profissionais responsáveis por interpretar os resultados, corrigir falhas e responder pela entrega. O efeito sobre o emprego depende de quanto trabalho permanece em cada cargo: automatizar uma tarefa não elimina automaticamente todas as atividades de quem a executava.
Redistribuição de pessoas. Outra possibilidade é deslocar profissionais de uma atividade cuja demanda caiu para funções que exigem revisão humana, atendimento ou integração de processos. A equipe de origem encolhe, mas parte de seus integrantes continua na empresa. Isso exige vagas internas e competências que possam ser aproveitadas; a intenção de redesenhar equipes não informa quantas transferências ocorrerão nem se todos os trabalhadores afetados conseguirão mudar de função.
Criação de funções. A adoção de IA pode levar uma companhia a contratar pessoas para desenvolver, integrar ou supervisionar sistemas ao mesmo tempo que reduz postos anteriores. Nesse cenário hipotético, admissões e cortes recaem sobre cargos com requisitos diferentes de formação e experiência. Um aumento no quadro total pode coexistir com dificuldade de recolocação para quem exercia a função reduzida. É por isso que a contagem de empregados, sozinha, não descreve a transição vivida pelos trabalhadores.
Ganho de escala. Se a tecnologia ampliar a capacidade de atender clientes, a empresa pode contratar para sustentar um negócio maior e usar menos pessoas por unidade de trabalho em uma etapa específica. Walsh apresentou essa expansão como uma possibilidade, dependente de demanda e de decisões de investimento. O mecanismo ajuda a conciliar crescimento e produtividade, mas não garante que cada posto eliminado em uma área seja compensado por uma vaga acessível à mesma pessoa.
O redesenho muda as habilidades procuradas

A mudança na composição das equipes já aparece nas prioridades declaradas. Em entrevista à Fortune, Walsh comentou os resultados: 83% dos CEOs priorizam reter e requalificar talentos com alto potencial, enquanto 79% buscam profissionais com habilidades em IA e tecnologia. Na comparação apresentada pela reportagem, a parcela que planeja cortes em algumas áreas passou de 35% para 53% em relação ao ano anterior. O avanço das reduções planejadas ocorre, assim, junto com maior atenção a novas competências.
Walsh descreveu uma mudança semelhante na composição da própria KPMG: a empresa precisa de mais engenheiros e profissionais com habilidades em IA e também treina sua equipe atual. Ele afirmou que, ali, não observa uma redução significativa de pessoal. O relato diz respeito à companhia que dirige, enquanto os percentuais da pesquisa reúnem respostas de outros líderes empresariais.
Para o trabalhador, a alteração pode começar antes de uma contratação ou demissão. Tarefas mudam de responsável, critérios para preencher vagas são revistos e uma carreira passa a exigir competências diferentes. Requalificar alguém que já conhece o negócio e contratar um especialista externo são respostas distintas ao mesmo redesenho; cada uma distribui de modo diferente as oportunidades abertas pela IA.
O que essas previsões dizem ao leitor brasileiro
Os entrevistados dirigem grandes empresas dos Estados Unidos. Suas respostas revelam como pretendem organizar equipes, mas não medem admissões ou demissões efetivas no Brasil nem permitem projetar o mesmo saldo para outros mercados de língua portuguesa. A combinação entre expansão e cortes dependerá da demanda, dos setores presentes em cada país, das competências disponíveis e das decisões de cada empregador.
O efeito mais concreto a observar será a distância entre os cargos que encolherem e os que receberem contratações. Quando as empresas executarem seus planos, mudanças nas funções e nos quadros mostrarão quantos profissionais permaneceram após a requalificação, quantos migraram de área e quantos saíram apesar do crescimento total previsto.
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