BepiColombo se separa a 200 milhões de km — Mercúrio ainda espera

A missão BepiColombo iniciou em 3 de setembro de 2026 sua sequência de chegada a Mercúrio, mas ainda não entrou em órbita do planeta. A mais de 200 milhões de quilômetros da Terra, o Mercury Transfer Module (MTM) separou-se do conjunto formado pelos orbitadores científicos europeu MPO e japonês Mio; os registros operacionais da ESA confirmam a separação bem-sucedida, os sistemas em condição nominal e os painéis solares do MPO carregando as baterias.
Os sinais foram recebidos por duas antenas de espaço profundo, em Cebreros, na Espanha, e Malargüe, na Argentina. A apuração da Associated Press também registrou a separação em 3 de setembro e verificou que MPO e Mio continuavam unidos, ainda a caminho da entrada em órbita prevista para novembro. O marco abriu a fase de chegada; não significou que a missão já estivesse circulando Mercúrio.
O que realmente se separou em setembro

O MTM era o módulo que fornecia energia e propulsão ao conjunto durante a viagem interplanetária iniciada em 2018. Sua retirada encerrou a configuração de cruzeiro usada para transportar os dois orbitadores até a etapa final da aproximação.
Os observatórios científicos, porém, continuam fisicamente unidos. O Mercury Planetary Orbiter (MPO), da Agência Espacial Europeia, passou a alimentar o conjunto. O Mercury Magnetospheric Orbiter, chamado Mio e operado pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), permanece acoplado ao MPO e protegido pelo Magnetospheric Orbiter Sunshield and Interface Structure (MOSIF).
É essa configuração que explica o verbo do título: BepiColombo se separou de seu módulo de transferência, não em seus dois orbitadores científicos. Mercúrio “ainda espera” porque MPO e Mio precisam completar a aproximação, entrar em órbita e somente depois seguir para trajetórias próprias.
A linha do tempo da separação até a ciência

A chegada foi distribuída por vários meses, com mudanças sucessivas na órbita e na configuração da espaçonave. A cronologia detalhada pela Space.com prevê 16 manobras para reduzir e remodelar a órbita, além das seguintes etapas:
- 3 de setembro de 2026: separação bem-sucedida do MTM; MPO e Mio permanecem acoplados.
- 21 de novembro de 2026: entrada do conjunto em órbita ao redor de Mercúrio.
- 9–10 de dezembro de 2026: liberação do Mio em uma órbita polar bastante elíptica.
- 16 de dezembro de 2026: descarte do MOSIF pelo MPO.
- 10 de março de 2027: chegada do MPO à sua órbita científica final.
- 6 de abril de 2027: início programado da fase científica conjunta.
Essas datas são marcos planejados, não resultados já alcançados. Navegação, execução das manobras e verificação dos sistemas ainda podem exigir ajustes antes que a configuração científica esteja pronta.
Por que entrar em órbita não basta
Passar perto de Mercúrio e permanecer ao redor dele são situações diferentes. A espaçonave chega ao planeta movendo-se no intenso campo gravitacional do Sol e precisa reduzir e controlar sua energia para ser capturada, sem gastar mais propelente do que a missão pode suportar.
A inserção de 21 de novembro será, portanto, o começo de uma transformação orbital. O conjunto deverá alterar gradualmente a forma e a altitude de sua trajetória antes de liberar Mio. Depois, o MPO descartará o MOSIF e continuará descendo até sua própria órbita.
Ainda haverá o comissionamento: equipes em solo precisarão verificar comunicações, apontamento, controle térmico e funcionamento dos instrumentos nas novas condições. Por isso, três expressões aparentemente próximas indicam estados distintos: fase de chegada, iniciada com a separação do MTM; entrada em órbita, prevista para novembro; e fase científica, programada para abril de 2027.
Por que Mercúrio receberá dois orbitadores

MPO e Mio foram concebidos para fazer medições complementares, e não para duplicar o mesmo observatório. O MPO operará mais perto do planeta, investigando a superfície, a composição, a geologia e a estrutura interna de Mercúrio.
Mio seguirá em uma órbita polar mais alongada e se concentrará no campo magnético, no plasma e na interação entre a magnetosfera mercuriana e o vento solar. Em altitudes e posições diferentes, as duas espaçonaves poderão observar ao mesmo tempo processos próximos da superfície e alterações no ambiente magnético mais amplo.
Essa simultaneidade é a vantagem central da arquitetura dupla. Uma única nave mede uma mudança no ponto por onde passa; dois observatórios em regiões distintas ajudam a determinar se o fenômeno atravessa o sistema ou se é apenas uma variação local.
Por enquanto, somente a primeira transição está concluída: o MTM foi descartado, os sistemas estavam nominais na telemetria recebida em 3 de setembro e MPO e Mio seguiam juntos. A entrada em órbita, a separação dos observatórios, a chegada às trajetórias finais e o início da ciência permanecem como etapas futuras — exatamente por isso a aproximação começou, mas Mercúrio ainda espera.
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