Na Colômbia, 63% fazem tarefas novas com IA — empresas ainda ficam atrás

Em 25 de agosto de 2026, a Microsoft publicou o recorte colombiano do Work Trend Index 2026: 63% dos usuários de inteligência artificial no país dizem produzir trabalhos que não conseguiam realizar um ano antes. O dado mede capacidades declaradas por pessoas que já usam IA, não a adoção entre todos os trabalhadores da Colômbia.
O avanço individual contrasta com o ambiente das empresas. Em uma cobertura publicada pela MisiónPyme em 26 de agosto, os resultados aparecem lado a lado: 70% dos usuários colombianos temem ficar para trás se não adotarem IA rapidamente, mas somente 28% consideram a liderança alinhada sobre a tecnologia e 15% sentem que reinventar o trabalho é recompensado mesmo quando não há resultado imediato.
A capacidade aumentou, mas o julgamento continua humano

O resultado central vai além de fazer uma tarefa conhecida mais rapidamente. Os entrevistados afirmam que passaram a produzir entregas antes fora de seu alcance, embora a divulgação colombiana não detalhe quais atividades se tornaram possíveis nem apresente uma avaliação externa da qualidade obtida.
As respostas também indicam que esses usuários não veem a saída da IA como produto acabado. Pensamento crítico, controle de qualidade e a decisão sobre o que delegar à tecnologia aparecem como partes relevantes do trabalho. A capacidade adicional, portanto, não elimina a intervenção humana: desloca parte dela da execução para a definição, a revisão e a aprovação.
Essa distinção importa porque uso frequente e integração deliberada não são equivalentes. Recorrer a uma ferramenta em tarefas isoladas pode elevar a capacidade de uma pessoa, mas não estabelece, por si só, um procedimento que outras pessoas consigam repetir com os mesmos critérios e responsabilidades.
Liderança e incentivos não acompanham a urgência

O principal descompasso colombiano está entre a pressão sentida pelo trabalhador e a direção oferecida pela organização. Quando há receio de perder espaço, mas faltam prioridades, regras de revisão e reconhecimento para experimentos, a adoção tende a permanecer dispersa entre indivíduos.
A baixa percepção de alinhamento não prova que as empresas deixaram de investir em IA. Ela mostra que, para grande parte dos usuários consultados, uma eventual estratégia ainda não se tornou clara e consistente nas rotinas de trabalho. O título descreve essa defasagem percebida; o levantamento não mediu diretamente maturidade tecnológica, produtividade, receita ou retorno financeiro das companhias colombianas.
Os incentivos completam o paradoxo. Se a organização reconhece apenas o resultado imediato, há menos espaço para testar novas divisões entre trabalho humano e automatizado, identificar falhas e transformar experiências locais em procedimentos compartilhados. Uma capacidade adquirida individualmente não se converte automaticamente em capacidade institucional.
O contexto organizacional pesa mais no resultado global

O recorte colombiano acompanha uma relação observada em escala mais ampla. No relatório global do Work Trend Index publicado em 5 de maio, fatores organizacionais responderam por 67% da importância relativa associada aos resultados declarados de IA, ante 32% para mentalidade e comportamento individuais; a análise considerou 19.854 respostas completas de uma pesquisa com 20 mil usuários de IA em dez mercados.
Entre os fatores organizacionais estão cultura, apoio dos gestores e práticas de gestão de talentos. Os resultados analisados também são percepções dos participantes, incluindo criatividade, colaboração, qualidade dos primeiros rascunhos e capacidade de realizar novos tipos de trabalho.
A relação é estatística, não causal. Como condições do ambiente, comportamentos e resultados foram informados pelas mesmas pessoas no mesmo período, não é possível concluir que alterar isoladamente um incentivo ou uma prática de gestão produzirá um ganho específico. O achado indica que o contexto organizacional tem associação mais forte com o valor percebido da IA do que a disposição individual do usuário.
O recorte não representa toda a força de trabalho
A principal limitação está no universo pesquisado: os percentuais colombianos dizem respeito a usuários de IA no trabalho. Quem não utiliza a tecnologia ficou fora desse enquadramento, por isso o resultado não pode ser convertido em uma afirmação sobre todos os trabalhadores do país.
Também há uma lacuna entre a metodologia global e a divulgação nacional. A pesquisa global identifica seus mercados, inclui o Brasil e não inclui a Colômbia; a página colombiana, por sua vez, não apresenta tamanho da amostra local, período de campo, ponderação ou margem de erro. Sem esses elementos, não é possível avaliar a representatividade nacional do recorte nem comparar os percentuais colombianos diretamente com os brasileiros.
Capacidade percebida tampouco equivale a desempenho observado. Dizer que um trabalho se tornou possível não demonstra que a entrega seja melhor, mais segura ou mais rentável. Da mesma forma, o medo de ficar para trás expressa uma sensação de urgência, não uma estimativa de risco de demissão ou substituição.
Até o momento, os dados sustentam uma conclusão delimitada: usuários colombianos relatam uma ampliação do que conseguem fazer com IA, enquanto poucos percebem liderança alinhada e incentivos compatíveis nas organizações. Para saber se essa distância está diminuindo, ainda são necessários detalhes públicos sobre a amostra nacional e indicadores observáveis de qualidade, produtividade e resultados empresariais.
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