
7 em 10 líderes serão cobrados por IA — só 25% se dizem muito prontos

Em um recorte da pesquisa Cultura na Prática publicado em 8 de outubro de 2026, 7 em 10 líderes (70%) esperam ser cobrados para fazer suas equipes usarem IA, mas só 25% se dizem muito preparados para conduzir a mudança. O Instituto QualiBest realizou o levantamento para o iFood, e essa comparação reúne respostas de 809 profissionais em funções de liderança no Brasil. A cobrança é uma expectativa dos entrevistados, não uma exigência já recebida por todos eles.
O descompasso é mais acentuado na coordenação e na supervisão, onde se encontram profissionais encarregados de transformar orientações da empresa em rotina de equipe. A pesquisa também distingue a confiança dos gestores para liderar a adoção, o preparo que os trabalhadores atribuem a si mesmos para usar IA e o acesso às ferramentas fornecidas pelas empresas. As três medidas descrevem aspectos diferentes da mudança.
Na coordenação, a confiança para liderar é menor

Entre coordenadores e supervisores, 38% esperam ser muito demandados a implementar IA nas equipes, enquanto 12% se consideram muito preparados para conduzir essa tarefa. A parcela que declara alto preparo chega a 27% entre gerentes e a 33% entre diretores e vice-presidentes. A comparação localiza a menor confiança declarada na camada intermediária, sem indicar que os profissionais que preveem cobrança intensa sejam necessariamente os mesmos que relatam pouco preparo.
No conjunto dos líderes, 68% afirmam estar preparados em algum grau. Há, portanto, uma diferença relevante entre sentir-se capaz de participar da mudança e sentir-se muito preparado para liderá-la. As respostas registram a avaliação dos próprios profissionais; não resultam de uma prova de habilidade com ferramentas ou de uma observação de como orientam suas equipes.
Essa distinção importa para interpretar a pressão percebida. Um coordenador pode conhecer aplicações de IA para o próprio trabalho e, ainda assim, ter dúvidas sobre como incorporá-las às tarefas de outras pessoas. O levantamento identifica o nível hierárquico em que essa insegurança declarada é mais forte, mas não mede quanto treinamento cada gestor recebeu nem permite atribuir a diferença ao cargo em si.
Usar IA e receber ferramentas são questões distintas

Na apuração da Forbes, 69% dos profissionais afirmam estar preparados para usar IA no trabalho, enquanto 60% consideram suas empresas preparadas para adotá-la. A primeira resposta trata da capacidade percebida pelo trabalhador; a segunda, da avaliação que ele faz da organização. Nenhuma delas equivale ao preparo declarado pelos líderes para conduzir a transformação de uma equipe.
O acesso também não acompanha todo o incentivo. Entre os entrevistados, 57% dizem que a empresa estimula o uso de IA e fornece ferramentas, enquanto 28% relatam estímulo sem essa oferta. Nesse último caso, há profissionais que recorrem a versões gratuitas ou pagam por soluções por conta própria. Entre coordenadores e supervisores, a parcela que relata incentivo sem ferramentas chega a 38%; nas empresas com mais de 5 mil funcionários, 72% relatam incentivo acompanhado de ferramentas.
Fábia Silveira, gerente de atendimento e planejamento do Instituto QualiBest, observou à Forbes que “poucos dizem que a empresa restringe ou proíbe o uso”. O contraste mais relevante para a liderança está, assim, entre estimular a adoção e oferecer meios para sustentá-la. A pesquisa mostra como essas respostas se distribuem, mas não testa se a falta de ferramentas reduz a confiança dos gestores.
A distância entre direção e base aparece também na cultura

Entre os participantes que dizem conhecer a cultura da empresa, a parcela que afirma vê-la sempre praticada varia por cargo: 60% na direção, 45% na gerência, 32% na coordenação e supervisão e 23% entre analistas e especialistas. Trata-se da vivência declarada dos valores da empresa no cotidiano, e não de uma medida de competência em IA.
Esse recorte ajuda a situar a tarefa dos gestores intermediários. Eles recebem orientações da direção e trabalham perto das equipes que terão de incorporá-las à rotina, mas relatam menos constância na prática da cultura empresarial do que os cargos acima deles. A pesquisa também registra diferenças entre níveis hierárquicos na percepção de que a IA já integra a cultura da organização; essas percepções não demonstram que uma diferença cause a outra.
Os analistas e especialistas entram nessa comparação como referência sobre a experiência na base da hierarquia. O levantamento não apresenta para eles um percentual de preparo para liderar equipes comparável ao dos gestores. Misturar as duas perguntas apagaria a diferença entre viver uma mudança no trabalho e responder por sua implementação entre outras pessoas.
O alcance dos resultados
A pesquisa ouviu 1.406 profissionais de todas as regiões do Brasil entre 13 e 17 de julho de 2026, por autopreenchimento em um painel online. Participaram pessoas adultas com vínculo CLT, PJ ou outro contrato formal, empregadas por organizações com pelo menos 100 funcionários. A margem de erro informada para o levantamento é de 2,6 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%; as bases variam conforme a pergunta, e cada recorte por cargo reúne menos respostas que a amostra total.
Os resultados descrevem expectativas, frequência de uso, acesso e percepções de preparo dos participantes. Não houve teste prático de competências nem acompanhamento posterior das equipes para medir mudanças no uso de IA. Também não há base para concluir que fornecer uma ferramenta, isoladamente, tornaria um gestor mais preparado: a pesquisa mostra onde cobrança esperada, confiança e suporte empresarial deixam de coincidir.
Para a coordenação e a supervisão, a consequência é concreta. Se a empresa espera que esses gestores disseminem IA, a demanda chegará justamente ao nível que relata menor confiança para liderar a mudança e maior incidência de incentivo sem ferramentas. O levantamento identifica essa tensão antes que se possa medir como ela afetará o trabalho das equipes.
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