Política de IA no trabalho: o documento mínimo para proteger dados e decisões

Uma política mínima de IA no trabalho cabe em uma página e reúne sete controles: alcance, ferramentas autorizadas, dados proibidos, usos permitidos, níveis de aprovação, revisão humana e resposta a incidentes. Ela deve permitir que qualquer funcionário descubra, antes de abrir um chatbot, o que pode fazer, quem precisa aprovar e como comunicar um problema.
Esse documento não substitui avaliações jurídicas, de privacidade, segurança ou contratação. Sua função é converter essas avaliações em regras operacionais que reduzam a exposição de dados e impeçam que uma saída gerada assuma, sem controle, o lugar de uma decisão humana.
Delimite os usos antes de escrever as regras
Comece listando as atividades em que a equipe já usa ou pretende usar IA: resumir documentos, preparar textos, analisar planilhas, escrever código, atender clientes ou apoiar recrutamento. Para cada caso, registre a finalidade, os dados envolvidos, quem receberá o resultado e o dano possível se houver erro, exposição ou discriminação.
Uma planilha com processo, área responsável, ferramenta, categoria de dados, pessoas afetadas e aprovador já separa tarefas rotineiras de aplicações que exigem avaliação formal. O Playbook do AI RMF organiza ações de gestão de risco nas funções Governar, Mapear, Medir e Gerenciar e permite adaptar as sugestões ao contexto de cada organização.
Modelo mínimo de política em uma página

O texto abaixo é uma estrutura editável. Os campos entre colchetes devem refletir os contratos, controles técnicos e responsabilidades reais da organização.
- Objetivo e alcance: “Esta política regula o uso de IA generativa por empregados, prestadores e terceiros que atuem em nome de [organização], inclusive em testes, contas gratuitas e dispositivos pessoais.”
- Ferramentas autorizadas: “Somente podem ser usadas [ferramentas e versões], em contas e configurações aprovadas por [área responsável]. A adoção de outra ferramenta depende de avaliação de segurança, privacidade, termos de uso, retenção e destino dos dados.”
- Dados proibidos: “Não inserir credenciais, chaves de API, segredos comerciais, código não público, documentos sigilosos ou dados pessoais em serviços de uso geral. Uma exceção só pode existir em ambiente expressamente aprovado para o tratamento em questão.”
- Usos permitidos: “A IA pode apoiar rascunhos, sínteses, tradução, pesquisa interna e geração de ideias quando o material de entrada puder ser compartilhado e a saída for verificada antes do uso.”
- Decisões e aprovação: “A saída não pode decidir sozinha sobre contratação, demissão, promoção, crédito, benefícios, saúde, segurança, acesso a serviços ou direitos. Usos nessas áreas exigem projeto aprovado e responsável humano com autoridade para rejeitar a recomendação.”
- Verificação e registro: “O usuário deve conferir fatos, cálculos, fontes, confidencialidade, direitos autorais e possíveis vieses. Nos usos controlados, registrar ferramenta, finalidade, categoria de dados, revisor e decisão tomada.”
- Incidentes e responsável: “Envio indevido, resposta prejudicial ou acesso não autorizado deve ser comunicado imediatamente por [canal] a [segurança/privacidade]. O proprietário da política é [função], responsável por exceções e atualizações.”
Uma página não precisa concentrar toda a governança. Inventários, avaliações, contratos, testes e evidências podem ficar em anexos ou sistemas internos. A caixa de ferramentas do Governo Digital trata o ciclo de vida da prospecção à desativação, distribui responsabilidades e reúne controles, métricas, guardrails e testes adversariais para projetos de IA.
Transforme “não envie dados” em uma regra reconhecível
Uma proibição genérica será difícil de aplicar. A política deve citar exemplos: nomes e contatos de clientes, dados de empregados, documentos de identidade, laudos médicos, biometria, origem racial ou étnica, religião, opinião política, informações financeiras individualizadas, contratos confidenciais, senhas, tokens, código proprietário e conteúdo protegido por segredo profissional.
Retirar apenas o nome não torna o material necessariamente anônimo. CPF, e-mail, matrícula, endereço, identificadores de dispositivo ou uma combinação de atributos ainda podem permitir a identificação. Se a tarefa realmente exigir dados pessoais, ela deve sair do uso informal e passar por uma avaliação documentada de finalidade, necessidade, acesso, retenção e condições do fornecedor.
O guia brasileiro do InternetLab explica que a LGPD deve ser observada quando sistemas de IA tratam dados pessoais, preserva os direitos dos titulares e inclui o compartilhamento acidental de informação sensível com IA generativa entre seus exemplos. Um erro no prompt, portanto, não elimina os deveres relacionados ao dado.
Use três níveis de aprovação

No nível verde, entram tarefas com material público, sintético ou criado para o exercício, sem dados pessoais, segredos ou efeitos diretos sobre terceiros. O funcionário pode executar a tarefa em uma ferramenta autorizada e revisar o resultado.
O nível amarelo cobre informações internas previamente saneadas, conteúdo destinado a clientes ou tarefas em que um erro possa causar impacto operacional. Exige conta corporativa, registro proporcional ao risco e revisão de gestor ou especialista antes da publicação ou execução.
O nível vermelho abrange dados pessoais sensíveis, bases confidenciais, integrações automáticas e apoio a decisões sobre emprego, crédito, saúde, segurança ou direitos. O uso permanece bloqueado até existir um projeto formal com aprovações das áreas competentes, controles técnicos, testes e responsável identificado pelo resultado.
Revisão humana não é apenas clicar em “aprovar”. O revisor precisa conhecer o contexto, consultar as fontes, reconhecer limitações da ferramenta e ter autoridade para discordar. Sem essas condições, a presença de uma pessoa no fluxo não protege a decisão.
Registre o necessário e prepare o incidente

O registro deve acompanhar o risco. Em tarefas verdes, a rastreabilidade normal do trabalho pode ser suficiente. Nos níveis amarelo e vermelho, convém registrar a ferramenta e sua versão, finalidade, categoria de dados, instruções relevantes, fontes consultadas, responsável pela revisão e uso dado à saída.
O prazo de retenção não deve ser indefinido por padrão: precisa seguir a finalidade e as regras internas aplicáveis. A política também deve nomear quem pode consultar os registros e quem decide sobre exceções.
Se houver envio indevido, o funcionário deve interromper o uso, preservar as informações necessárias à apuração e acionar imediatamente o canal definido. Segurança, privacidade e a área responsável pelo processo classificam os dados, avaliam a exposição, buscam contenção junto ao fornecedor e verificam as obrigações de comunicação aplicáveis.
O fluxo mínimo pode ser resumido em sete verbos: comunicar, classificar, conter, preservar, avaliar, notificar quando necessário e corrigir. Relatos rápidos de boa-fé devem ser tratados como parte do controle; ocultar o erro reduz as possibilidades de contenção.
Relacione cada regra às funções do NIST
- Governar: proprietário da política, ferramentas autorizadas, responsabilidades, treinamento e critérios de exceção.
- Mapear: inventário dos casos de uso, dados utilizados, pessoas afetadas, contexto e consequências de falhas.
- Medir: testes de precisão, segurança, privacidade, vieses e eficácia dos controles.
- Gerenciar: níveis de aprovação, bloqueios, resposta a incidentes e decisão de continuar, limitar ou encerrar um uso.
A política está pronta quando responde a três perguntas diante de uma tarefa concreta: posso usar esta ferramenta com estes dados, quem responde pela aprovação e o que faço se algo der errado? Se a página não oferece essas respostas sem depender de interpretação técnica, ainda não funciona como regra operacional.
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